A engenharia de produção em meio a crise hídrica

Artigo de Paulo Valladares Soares (UNESP/FEG) e Bruna C. Soldera (Instituto Água Sustentável)

Dentre os recursos naturais essenciais a sobrevivência humana e grande parte dos seres vivos, a água doce é a que mais tem sofrido com um aumento exponencial de utilização, em nível global, agravado pelo fato de que sua distribuição não é equitativamente na superfície terrestre.

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Foto: Bruna Soldera/Arquivo pessoal

As atividades antrópicas podem causar impacto direto e indireto a água, atividades antrópicas geralmente afetam a distribuição, qualidade e quantidade de água doce, e estes efeitos são sentidos em uma ampla escala de espaço e tempo. Sanderson et al. (2002), Postel et al. (1996) e McMillan et al. (2016) identificaram que atividades humanas têm impacto direto em 83% das áreas terrestres e usam 54% do escoamento global de água doce disponível e Vorosmarty et al. (2010), Sivapalan et al.(2012), Di Baldassarre et al. (2015), Sivapalan & Blöschl (2015) e McMillan et al. (2016) atestam que 80% da população mundial vive sob alta ameaça à segurança hídrica, seja relacionada a escassez ou a contaminação. Os autores dizem que a atual crise da água é regida por princípios sócio-hidrológicos.

Adicionalmente, impactos à água estão relacionados ao aumento populacional, elevação da qualidade de vida, mudanças nos padrões de consumo e expansão da agricultura irrigada (MEKONNEN et al., 2016). Negligenciar as questões associadas à água pode impor graves efeitos à economia e qualidade de vida das populações, com resultados potencialmente catastróficos e custosos (WORLD WATER ASSESSMENT PROGRAMME, 2016). A precária e ineficiente gestão e gerenciamento dos recursos hídricos podem contribuir para o atraso no desenvolvimento de um país e reverter ganhos na redução de pobreza e criação de empregos (WORLD WATER ASSESSMENT PROGRAMME, 2016). Outros pontos que merecem destaque estão relacionados a supressão da vegetação nativa e ao desperdício estrutural ainda arraigado em nossa sociedade de consumo.

Quanto a distribuição do recurso hídrico para a população humana, é flagrante o contraste presente na desigualdade de distribuição de recursos hídricos, considerando as diferenças populacionais. Por exemplo, o continente mais populoso, a Ásia, que contém 59,8% dos habitantes no mundo, dispõe de apenas 31,6% da água doce disponível no planeta; enquanto as Américas, que apresenta 13,6% da população mundial, conta com 41% da água disponível. Porém esta desigualdade não existe só em nível mundial. Um grande exemplo é o Brasil, que além de ter 12% de toda a água doce do planeta, apresenta 70% desta no local de menor densidade populacional do país, bacia amazônica, contrastando com a região mais árida, nordeste, que possui apenas 5% da água doce disponível (AUGUSTO et. al., 2012).

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Foto de Pixabay: https://pixabay.com/pt/photos/rio-negro-anavilhanas-5379245/

Em meados de 2008, Tundisi já alertava que vivíamos uma “crise da água”, motivada, principalmente, pela escassez, que poderia ter como fatores deflagradores as alterações na disponibilidade, aumento da demanda, além de períodos intensos de seca. Isso faz com que a característica do abastecimento hídrico apresente um componente muito forte de incertezas. Hoje vemos que o que se falava lá em 2008, 13 anos atrás, é uma realidade triste e ainda mais grave, muitos já falam que a crise climática na verdade é uma crise hídrica, sendo que a escassez de água, agravada pela mudança climática, pode custar a algumas regiões até 6% de seu PIB, estimular a migração e gerar conflitos (INSTITUTO ÁGUA SUSTENTÁVEL, 2021WORLD BANK, 2021), ou seja, esse é um fato que pode impactar as questões econômicas de um país.

A falta de água é uma realidade que coloca em risco 40% da população mundial, no Brasil aproximadamente 35 milhões de pessoas não têm acesso a água encanada e 100 milhões de brasileiros não têm coleta de esgoto (SISTEMA NACIONAL DE INFORMAÇÕES SOBRE SANEAMENTO - SNIS 2019). Em 2011, 41 países enfrentaram problemas relacionados à água, 10 deles estão perto de diminuir o fornecimento de água potável e precisam de fontes alternativas para garantir o abastecimento de forma digna (PNUD BRASIL). O mais assustador é que para 2050, está projetado que uma em cada quatro pessoas será afetada pela carência de água” (PNUD BRASIL).

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Foto de Ahmed akacha/ Pexels

Uma notícia recente conduzida peo MapBiomas em 2021 mostrou que a superfície hídrica do Brasil reduziu 15,7%, essa área equivale ao tamanho do Estado de Alagoas, o G1 (2021) mencionou em uma reportagem que  das 12 grandes bacias hidrográficas do país, 8 estão "encolhendo". Mas nada se falou sobre as águas subterrâneas? O que acontece com as águas que estão abaixo dos nossos pés?

“O planeta como um todo vem silenciosamente transferindo água dos continentes para os oceanos há séculos: 15 a 25% da elevação do nível dos oceanos deve-se a água que é extraída por poços dos aquíferos indo para os cursos d’água superficiais e eventualmente chegando aos oceanos" diz a reportagem do Jornal O Estado de São Paulo (2021). 98% da água doce disponível na Terra é água subterrânea e sua superexplotação, contaminação estão sendo cada vez mais sentida pela humanidade.

Os autores da reportagem, Oliveira & Soldera, descreveram exemplos impressionantes sobre como a escassez de água subterrânea pode impactar e muito uma sociedade: na Índia a cada 30 minutos um fazendeiro comete suicídio porque seus poços secaram e por isso não há água para manter sua lavoura e não podem cumprir com suas dívidas; nos Estados Unidos, o Aquífero Ogallala está desaparecendo e em alguns lugares já não há mais água e isso pode representar um prejuízo de mais de US$ 20 bilhões em alimentos e fibras desaparecerão dos mercados mundiais.

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Foto de ritesh arya no Pexels: https://www.pexels.com/pt-br/foto/criancas-em-pe-ao-lado-da-bomba-d-agua-manual-3079978/

Tendo em vista o cenário crítico em que se encontram os recursos hídricos, surge então a necessidade de se gerenciar de maneira eficaz esse recurso que é tão importante e que apresenta muita incerteza tanto em relação à oferta quanto à demanda. Propiciar um bom gerenciamento da água trará consigo a diminuição de muitos problemas, sendo estes: consumo exagerado de água; falta de qualidade no produto; ausência de consciência ambiental e altos custos de operação e manutenção do sistema (PAULINO, 2005).

Um dos maiores desafios para a gestão de recursos hídricos é induzir maior racionalidade ao uso da água por parte dos serviços de abastecimento público, dos setores industriais e do agronegócio. Em cenários onde a escassez de água se apresenta, constitui-se como necessária a implantação de políticas públicas e privadas, a fim de se permitir um melhor gerenciamento do recurso, focando na oferta e demanda de água, com o objetivo de se manter os níveis adequados para todos os fins aos quais esta é compartilhada (CHAIB et. al, 2015).

Os fatores humanos, sociais e ecológicos demandam uma abordagem mais ampla do que as abordagens clássicas tratados sob pena de se obter uma solução parcial não dão conta dos fenômenos complexos que envolvem esses fatores. Entretanto, é preciso desenvolver abordagens que permitam o avanço do conhecimento sobre bases científicas (NETO & LEITE, 2010). A abordagem sistêmica é um caminho possível para ampliar os horizontes da pesquisa e praticar a interdisciplinaridade necessária à observação de problemas complexos. A abordagem sistêmica busca compreender, conceber e modelar os fenômenos o mais próximo possível da realidade, respeitando-lhes as características próprias e o contexto no qual estão inseridos. Parte-se da constatação de que os sistemas complexos não devem ser modelados, empregando-se apenas a lógica físico-matemática, pois seus pressupostos são inadequados às características exibidas por eles. (NETO & LEITE, 2010).

Devemos sempre ter em mente que ninguém vive sem água, precisamos gerir de forma adequada, com profissionais qualificados. Neste contexto a Engenharia de Produção pode contribuir para uma melhor organização, planejamento e controle dos recursos hídricos por se tratar de problemas complexos que vão além da matemática e da física, pois necessitam de uma abordagem interdisciplinar. Estamos falando desde o projeto do sistema hídrico em que se discute a necessidade em função da característica que cada região ou população, os recursos necessários, a organização do sistema para que atenda sua função social, ambiental e econômica, como a gestão dos recursos empregados que vão desde matérias-primas, máquinas, energia até as pessoas envolvidas para que haja eficácia na entrega do serviço (esgoto, distribuição de água potável, geração de energia, etc.) e eficiência no uso dos recursos hídricos evitando desperdícios.  Acesse e saiba mais sobre o Mestrado Profissional em Engenharia de Produção: https://mepep.feg.unesp.br

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REFERÊNCIAS:

AUGUSTO, L. G. S; GURGEL, I. G. D; NETO, H. F. C; MELO, C. H; COSTA, A. M. O contexto global e nacional frente aos desafios do acesso adequado a água para consumo. Revista Ciência e Saúde Coletiva. v. 17. n. 6. p. 1511 – 1522, 2012.

CHAIB, E. B; RODRIGUES, F. C; MAIA, B. H; NASCIMENTO, N. D. O. Avaliação do potencial de redução do consumo de água potável por meio da implantação de sistemas de aproveitamento de água de chuva em edificações unifamiliares. Revista Brasileira de Recursos Hídricos. v. 20. n.3. p. 605 – 614. 2015.

DI BALDASSARRE, G., A. VIGLIONE, G. CARR, L. KUIL, K. YAN, L. BRANDIMARTE, G. BLOSCHL. Debates- Perspectives on socio-hydrology: Capturing feedbacks between physical and social processes. Water Resources Research, vol. 51, 2015. pp. 4770–4781

INSTITUTO ÁGUA SUSTENTÁVEL, 2021: https://aguasustentavel.org.br/conteudo/blog/134-qual-a-relacao-das-mudancas-climaticas-com-a-agua

JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO: https://digital.estadao.com.br/article/281603833663353

MAPBIOMAS, 2021: https://mapbiomas.org/reducao-das-praias-e-dunas-no-brasil-foi-de-15-nos-ultimos-36-anos

MCMILLAN . H. et al. Panta Rhei 2013–2015: global perspectives on hydrology, society and change. Hydrological Sciences Journal, vol. 61, Nº. 7, 2016. pp. 1174–1191.

MEKONNEN, M. M., HOEKSTRA, A. Y. Four billion people facing severe water scarcity. Sci. Adv., Vol. 2, 2016. pp. 1-6.

NETO, A.I., LEITE, M.S. A abordagem sistêmica na pesquisa em Engenharia de Produção. Produção, v.20, n.1, jan./mar.2010, p.1-14.

PAULINO, M. P. Alternativas de Concepção e Gestão de Gestão de Abastecimento de Águas de Cidades que Utilizam Vários Mananciais: Caso Ouro Preto/MG. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Ouro Preto. 2005.

PNUD BRASIL: https://www.br.undp.org/content/brazil/pt/home/sustainable-development-goals/goal-6-clean-water-and-sanitation.html

POSTEL, L. P.,GRETCHEN C. DAILY, PAUL R. EHRLICH. Human Appropriation of Renewable Fresh Water. Science, vol. 271, No. 5250, 1996. pp. 785-788.

SISTEMA NACIONAL DE INFORMAÇÕES SOBRE SANEAMENTO – SNIS 2019: http://www.snis.gov.br

SIVAPALAN,  M.; HUBERT H. G. S., GÜNTER B. Socio-hydrology: A new science of people and water. Hydrological Processes, vol. 26, 2012. pp. 1270–1276.

SIVAPALAN, M., AND G. BLOSCHL (2015),Time scale interactions and the coevolution of humans and water, Water Resour. Res., 51, 6988–7022.

TUNDISI, J. G. Recursos Hídricos no futuro: Problemas e Soluções. Revista Estudos Avançados, v. 22, n. 63, p. 7-16, 2008.

TUNDISI, J. G. Governança da Água. Revista UFMG. Belo Horizonte, v. 20, n.2, p. 222-235, Instituto Internacional de Ecologia de São Carlos. 2013.

VOROSMARTY, C. J.; MCINTYRE, P. B.; GESSNER, M. O. ; DUDGEON,  D.; PRUSEVICH, A.; GREEN, P. ; GLIDDEN, S.; BUNN, S. E.; SULLIVAN, C. A.; REIDY LIERMANN, C.; DAVIES; P. M. Global threats to human water security and river biodiversity. Nature, Vol. 467, 2010. pp. 555–561.

WORLD WATER ASSESSMENT PROGRAMME (WWAP). 2016. The United Nations World Water Development Report 2016: Water and Jobs. Paris, UNESCO.

WORLD BANK, 2021: https://blogs.worldbank.org/water/time-adapt-changing-climate-what-does-it-mean-water?CID=WAT_TT_Water_EN_EXT