Engenharia de Produção: desafios institucionais e ambientais

Vários são os desafios que a humanidade enfrentará no século XXI na área ambiental. Aqui destacamos a questão da conservação dos recursos hídricos e identificamos que o problema é gerencial e está colocado em dois níveis: pessoal/institucional e ambiental.

No pessoal/institucional, ao rever hábitos esbanjadores no uso de serviços ecossistêmicos (solo, fauna, flora, ciclagem de nutrientes, manutenção da biodiversidade, entre outros) e de construir instrumentos legais que estimulem financeiramente e em parceria programas/ações e práticas junto a área rural e/ou urbano que comprovadamente contribuam para a produção, conservação e recuperação dos componentes bióticos e abióticos da paisagem. Além de instrumentos legais, podemos ainda exercer uma pressão, como consumidores, na busca de um capitalismo mais consciente, em que as empresas são reconhecidas por proteger os recursos naturais, promover impacto social e adotar uma conduta ética em seus negócios, resumida em três letras: ESG (do inglês Environmental, Social and Governance). No ambiental, ao rever, por exemplo, o planejamento e gestão dos recursos hídricos integrando o indivíduo, empresas e governo.

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Segundo a Secretaria Nacional de Saneamento, em 2019, 61,9% da população das cidades brasileiras foram beneficiadas com cobertura de esgotamento sanitário, mas apenas 49% do esgoto produzido foi tratado e 39,2% da água potável disponibilizada no país se perdeu na distribuição (RODRIGUES, 2020). Assim como no mundo, no Brasil a disponibilidade dos recursos hídricos está diminuindo e os conflitos relacionados ao uso estão crescendo. A diminuição da vazão à jusante nos períodos de estiagem e o aumento, de forma crítica, nos períodos de chuva é fruto do uso desregrado e preservação inadequada, dos recursos naturais existentes na bacia hidrográfica em todo planeta.

A preocupação da gestão de recursos hídricos participativa, integrada e descentralizada e a busca da articulação institucional entre projetos de pesquisa, órgãos públicos e empresas são ações pouco ou nada comuns. Esses aspectos se tornam um forte componente pedagógico para todos os envolvidos no trabalho, pois coloca técnicos de instituições públicas e os demais atores diante do desafio de respeitar as múltiplas leituras da realidade e não cair na tentação de uma visão cientificista, nem um pouco operacional (SOARES, 2005).


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Os fatores humanos, sociais e ecológicos demandam uma abordagem mais ampla do que as abordagens clássicas, sob pena de se obter uma solução parcial não dando conta dos fenômenos complexos que envolvem esses fatores. Entretanto, é preciso desenvolver abordagens que permitam o avanço do conhecimento sobre bases científicas. (NETO e LEITE, 2010).

A abordagem sistêmica é um caminho possível para ampliar os horizontes da pesquisa e praticar a interdisciplinaridade necessária à observação de problemas complexos. A abordagem sistêmica busca compreender, conceber e modelar os fenômenos o mais próximo possível da realidade, respeitando-lhes as características próprias e o contexto no qual estão inseridos. Parte-se da constatação de que os sistemas complexos não devem ser modelados, empregando-se apenas a lógica físico-matemática, pois seus pressupostos são inadequados às características exibidas por eles (NETO e LEITE, 2010).

Neste contexto, a Engenharia de Produção pode contribuir para uma melhor organização, planejamento e controle dos recursos hídricos por se tratar de problemas complexos que vão além da matemática e da física, pois necessitam de uma abordagem interdisciplinar. Estamos falando desde o projeto do sistema hídrico em que se discute a necessidade em função da característica que cada região ou população, os recursos necessários, a organização do sistema para que atenda sua função social, ambiental e econômica, como a gestão dos recursos empregados que vão desde matérias-primas, máquinas, energia até as pessoas envolvidas para que haja eficácia na entrega do serviço (esgoto, distribuição de água potável, geração de energia, etc.) e eficiência no uso dos recursos hídricos evitando desperdícios. 

O Mestrado Profissional em Engenharia de Produção da UNESP é um curso de especialização que aborda essas questões e sobressai aos demais por ser um curso multidisciplinar dentro da área em questão e que foca em colocar em prática os aprendizados no mercado de trabalho. Acesse e para conhecer mais: https://mepep.feg.unesp.br

Referências:

NETO, A.I., LEITE, M.S. A abordagem sistêmica na pesquisa em Engenharia de Produção. Produção, v.20, n.1, jan./mar.2010, p.1-14.

SOARES, P.V. 2005. As interrelações de elementos do meio físico natural e modificado na definição de áreas potenciais de infiltração na porção paulista da bacia do rio Paraíba do Sul. 169f. Tese de Doutorado, Unicamp, Campinas.

RODRIGUES, A. 2020. Rede de esgoto é ampliada, mas cobertura ainda é baixa, diz ministério: Quatro em cada dez brasileiros não contam com tratamento de esgoto. Agência Brasil - Empresa Brasil de Comunicação S.A. (EBC), Brasília.