A Engenharia de Produção em Ações para racionalização do consumo de água

Trabalho de Hilton Brandão Araujo (IFFR) e Paulo Valladares Soares (UNESP/FEG) 

A escassez da água tem demonstrado a necessidade de um consumo responsável. O desperdício de água e a sua má utilização são mais comuns do que imaginamos, vemos isso acontecer nas edificações públicas brasileiras, principalmente nas escolas, devido às suas múltiplas atividades.

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Nesse contexto, a sociedade contemporânea vem tentando obter soluções adequadas para elaboração e implantação de sistemas racionais para utilização da água, buscando a redução do volume utilizado e diminuição do desperdício. No decorrer do tempo essa busca polarizou o emprego de ações em três níveis sistêmicos relacionados à água, (i) Macro – sistemas hidrográficos, (ii) Meso – sistemas públicos urbanos de abastecimento de água e de coleta de esgoto sanitário, e (iii) Micro – sistemas prediais, conforme Oliveira (1999), corroborado por Silva (2005) e, também, Mendanha, Paula e Oliveira (2010).

No Brasil, as intervenções nos níveis macro e meso, pelo seu alto custo e características próprias – planejamento, implementação e manutenção da infraestrutura das cidades – foram, quase sempre, geridas pelo poder público (TUCCI, 2008), e se consolidaram por meio de Decretos, Leis, Portarias e Resoluções relacionados ao meio-ambiente, referindo-se, inclusive, aos recursos hídricos. Destacam-se: Decreto 24.643/1934 – Código de Águas; Lei 6.662/79 – Política Nacional de Irrigação; Lei 6.938/1981 - Institui a Política e o Sistema Nacional do Meio Ambiente e Lei 9.433/1997 - Lei de Recursos Hídricos – Institui a Política e o Sistema Nacional de Recursos Hídricos (BRASIL, 1934; 1979; 1981; 1997).

Há diversas ações que podem ser aplicadas para mitigação do problema, dentre elas as ações tecnológicas que se referem, quase sempre, às intervenções físicas realizadas no sistema, como aprimoramento da manutenção, gestão, substituição de equipamentos, controle de fluxo, dentre outras. As medidas de conscientização, focadas na sensibilização do indivíduo, resultam da análise do comportamento das pessoas com relação ao uso da água.

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Mudanças simples de hábitos no cotidiano das pessoas podem, efetivamente, representar o patamar inicial do uso sustentável deste recurso tão importante para o ser humano. Porém, para esses hábitos se consolidarem, é imprescindível, como afirma Oliveira (2013), que aconteça um processo de conscientização do usuário para que ele entenda nessa alteração uma necessidade, e isto pode ser conseguido através de propostas de educação como meio de se alcançar um desenvolvimento sustentável.
A implantação de sistemas racionais de distribuição de água, baseada numa educação para a sustentabilidade, pode ser possível. Nesse contexto, o universo escolar, um dos meios importantes para a formação do cidadão, os quais, dentre outros conhecimentos e responsabilidades, devem possuir a compreensão da importância dos recursos naturais para a sustentabilidade do planeta, torna-se um ambiente propício para discutir, implementar ações e avaliar resultados com relação ao uso da água.

No estado de Roraima o crescimento da demanda por água causou grandes transtornos aos habitantes da capital, Boa Vista, na década de 2000, resultando na ampliação do sistema de captação, tratamento e distribuição de água tratada da cidade, chegando a um volume de 36.049.465 m³/ano de água tratada, alcançando 98% de uma população de 299.672 pessoas (BRASIL, 2018a). Apesar do investimento recente, a concessionária local responsável pela distribuição de água, Companhia de Águas e Esgotos de Roraima (CAER), recebe constantes reclamações relacionadas à falta de água ou vazamentos em diversos pontos da cidade, o que comprova a necessidade de manutenção constante no sistema de abastecimento.

No estado não se tem conhecimento da implantação de metodologias objetivando a redução do consumo de água por meio de intervenções tecnológicas e processos de conscientização dos usuários, de forma conjunta, em sistemas prediais. Tem-se, contudo, verificado a existência de algumas ações isoladas que visam a redução do consumo, que se constituem, na maioria das vezes, na instalação de torneiras com controle automático de fluxo e/ou vaso sanitário dotado de caixa de descarga com duplo acionamento.

O Campus Boa Vista (CBV) do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Roraima (IFRR), assim como as outras instituições de ensino existentes no estado, apresenta uma instalação hidro sanitária convencional, composta de um sistema de tubulação que conduz a água até aos equipamentos de distribuição que, por sua vez, são acionados de forma manual. Ao optar pelo abastecimento privado, efetuado por meio de um sistema de poços freáticos profundos, não ocorreu a instalação de equipamentos hidro medidores, os quais são adequados para supervisão do consumo de água. O desconhecimento do volume de água despendido nas diversas atividades desenvolvidas na instituição e, também, a deficiência nos serviços de manutenção, evidenciada pelos vazamentos constatados e possíveis perdas no volume de água retirada do solo, levam a crer que o sistema é deficitário, e que necessita de melhorias que o levem a funcionar de forma eficiente.

Assim, frente aos problemas no sistema hidráulico enfrentados pelo CBV, esta pesquisa tem como principal objetivo propor a implantação de ações que buscam proporcionar a racionalização do uso da água nas suas dependências, adotando procedimentos tecnológicos e comportamentais de forma que uma educação para a sustentabilidade seja assimilada pelos usuários, reconhecendo, dessa forma, que o papel principal da educação ambiental seja, como afirma Cuba (2010), contribuir para que as pessoas adotem uma nova postura com relação ao seu próprio lugar.

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As dificuldades encontradas no decorrer da pesquisa se deram pela impossibilidade de se estabelecer a composição quantitativa do consumo, aqui denominado, indeterminado. As parcelas componentes deste consumo correspondem, quase sempre, ao volume empregado na rega de jardins, nas atividades de laboratórios, na lavagem de veículos e, principalmente, às perdas com vazamentos não visíveis e/ou desperdícios não identificados. Por outro lado, a iniciativa de se empreender estudos dessa natureza deve ser sempre estimulada, visto que os resultados podem resultar, sempre, à compreensão do sistema existente, cujas informações possibilitarão a incorporação de ações buscando a eficiência no uso da água.

Considerando os resultados obtidos, conclui-se que o sistema hidráulico do CBV se apresenta deficitário com relação ao uso da água. Assim, recomenda-se as seguintes medidas:

Recomendações em curto prazo: implementar a prática contínua de manutenção no sistema; fazer uso da água de descarte da piscina, empregá-la no serviço de limpeza; substituir ou isolar os equipamentos que apresentam vazamentos; dar continuidade ao monitoramento do consumo.

Recomendações em médio prazo: implementar a setorização da tubulação visando manter o abastecimento em todos os prédios quando parte do sistema sofrer manutenção; elaborar e implementar ações de conscientização e campanhas educativas junto à comunidade usuária da água; instalar hidrômetros nos ramais de cada edificação para possibilitar o acompanhamento individualizado do consumo;

Recomendações em longo prazo: nomear um comitê gestor do sistema hidráulico do CBV; proceder à aquisição e substituição de aparelhos convencionais por equipamentos poupadores; estabelecer ações interdisciplinares integradoras objetivando prosperar o ensino da EA; estabelecer serviço de análise periódica da qualidade da água distribuída no CBV; empreender de forma contínua ações que levem ao consumo responsável e que fortaleçam o procedimento sustentável do indivíduo; implementar, em sua forma integral, o PURA (Programa de Uso Racional da Água)/CBV.

A proposta concebida para o PURA/CBV se concentra numa estrutura linear, elaborada para aplicação prática no CBV, com o intuito de estabelecer o uso racional da água no ambiente físico da instituição. Esta estrutura apresenta 5 (cinco) etapas principais de procedimentos, agrupados de forma ordenada, vinculadas a uma etapa principal, de planejamento, com evolução contínua, conforme fluxograma a seguir. Cada etapa é constituída de rotinas individualizadas, mas que se complementam ao se analisar os produtos obtidos.

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Referências:

BRASIL. Congresso. Senado. Constituição (1934). Decreto nº 24.643, de 10 de julho de 1934. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d24643.htm>. Acesso em: 05 jul. 2017.

BRASIL. Congresso. Senado. Constituição (1979). Lei nº 6.662, de 25 de junho de 1979. Brasilia, 25 jun. 1979. Disponível em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6662.htm>. Acesso em: 05 jul. 2017.

BRASIL. Planalto. Lei 6938/81, de 31 de agosto de 1981. Disponível em
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L6938.htm. > Acesso em: 4 jun. 2018

BRASIL. Câmara. Legislação Federal. Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997: recursos
Hídricos. Disponível em: < http://www2.camara.leg.br/busca/?q=legislação >. Acesso em: 23 maio 2018.
BRASIL. Estado. CAER. Saneamento. Boa Vista. Disponível em
<http://www.caer.com.br/saneamento.jsp.> Acesso em: 4 jun. 2018a.

MENDANHA, T. O; PAULA, H. M. de; OLIVEIRA, V. R. Programa de conservação da água da Universidade Federal de Goiás – Campus Catalão: Levantamento dos índices de consumo e implantação das etapas iniciais avaliando o comportamento dos usuários. 12p. Catalão. 2010.

OLIVEIRA, F. R. G. Consumo de água e percepção dos usuários para o uso racional de água em escolas estaduais de Minas Gerais. 193 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia), Faculdade de Engenharia Civil, Universidade Federal de Uberlândia, 2013.

OLIVEIRA, L.H. Metodologia para a implantação de programa de uso racional de água em edifícios. 344p. Tese (Doutorado) – Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI – USP). São Paulo. 1999.

SILVA, G. S. Programas permanentes de Uso Racional da Água em Campi
Universitário. Estudo de caso: Programa de Uso Racional da Água da Universidade de São Paulo. 328p. 2v. Dissertação (Mestrado) - Escola Politécnica, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2005.

TUCCI, C. E. M. Águas urbanas. Estudos avançados, v. 22, n. 63, p. 97-112. São Paulo.2008.